Presença de estatal chinesa em projetos de computação quântica e no telescópio BINGO gerou preocupação em relatório do Congresso americano.
Um projeto científico sediado no interior da Paraíba se tornou, sem querer, personagem de uma disputa que envolve os Estados Unidos e a China. A parceria entre o governo paraibano e o Yangtze River Delta Industrial Innovation Center for Quantum Technology, vinculado ao 54º Instituto de Pesquisa da estatal chinesa China Electronics Technology Group Corporation, prevê o fornecimento de computadores quânticos e a transferência de tecnologia para o Brasil. O mesmo grupo chinês também está envolvido em outro projeto científico no estado, o radiotelescópio BINGO, o que acabou chamando a atenção de autoridades americanas. Para quem acompanha o noticiário internacional, a pergunta que fica é como um projeto de ciência básica no sertão paraibano virou tema de relatório do Congresso dos Estados Unidos. Movimento Econômico
A ligação entre computação quântica e o telescópio BINGO
O envolvimento da estatal chinesa CETC 54 na Paraíba não se limita ao centro de computação quântica em João Pessoa. Em junho de 2025, o centro chinês assinou acordo de cooperação em Chengdu com a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de Campina Grande e a Universidade Federal da Paraíba para pesquisa aplicada em computação quântica no campo da ciência espacial. Essa cooperação inclui o desenvolvimento de algoritmos quânticos para processar dados do radiotelescópio BINGO, instalado na Serra da Catarina, no município de Aguiar, no sertão paraibano, a cerca de 420 quilômetros de João Pessoa. Movimento Econômico
O radiotelescópio BINGO tem como objetivo ampliar a capacidade de observação astronômica no Hemisfério Sul, com foco especial na exploração da região central da Via Láctea. É justamente essa combinação, a mesma estatal chinesa fornecendo estrutura física para um telescópio e equipamentos para um centro de computação quântica no mesmo estado brasileiro, que despertou desconfiança em Washington. Para o governo paraibano e para os coordenadores científicos do projeto, ligados à USP e ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a parceria tem caráter estritamente acadêmico e científico, sem qualquer finalidade estratégica ou militar.
O relatório do Congresso americano e as restrições comerciais
A preocupação dos Estados Unidos ganhou forma oficial no início deste ano. Em março de 2026, um relatório do Congresso americano classificou o BINGO como possível componente de uma rede de inteligência chinesa no Hemisfério Sul, citando o papel da estatal CETC na fabricação da estrutura física e dos refletores do telescópio, a mesma empresa que fornece os computadores quânticos do centro paraibano. O documento reacende um debate mais amplo sobre a presença de empresas chinesas em infraestrutura científica e tecnológica de países da América Latina. Movimento Econômico
A situação ganha um contorno ainda mais delicado porque a CETC 54 já enfrenta restrições comerciais nos Estados Unidos. A estatal figura na lista de restrições do Departamento de Comércio americano, que proíbe empresas dos Estados Unidos de fornecerem tecnologia ao grupo sem licenças especiais. Isso significa que, ao mesmo tempo em que o Brasil aprofunda a cooperação científica com a China em território paraibano, o principal parceiro comercial do setor de tecnologia no Ocidente trata a mesma contraparte chinesa como um risco de segurança que precisa ser monitorado de perto. Movimento Econômico
O que está em jogo para o Brasil
Apesar da tensão diplomática ao redor do tema, o governo brasileiro segue tocando o projeto dentro do cronograma previsto, sem sinais de recuo na parceria com a China. A posição oficial defendida tanto pelo governo estadual quanto pelas universidades envolvidas é de que os projetos têm finalidade puramente científica, voltados à formação de pesquisadores e ao avanço do conhecimento em áreas como astronomia e computação. Ainda assim, o episódio expõe como projetos de ciência aparentemente distantes da geopolítica podem, na prática, se tornar peças de um tabuleiro internacional mais amplo, envolvendo disputa tecnológica entre grandes potências.
Esse tipo de situação não é exclusiva do Brasil. Outros países que mantêm parcerias científicas com empresas chinesas ligadas ao setor de defesa e tecnologia sensível também têm enfrentado questionamentos semelhantes por parte de autoridades americanas nos últimos anos. Para a Paraíba, o desafio agora é conduzir o projeto de computação quântica e a cooperação do BINGO sem que a disputa internacional interfira no cronograma de instalação dos equipamentos, previsto para ser concluído até outubro deste ano.
O episódio mostra como um projeto de ciência sediado no interior nordestino pode, sem planejamento algum, se tornar parte de uma disputa tecnológica que envolve as duas maiores potências do mundo. Enquanto isso, pesquisadores brasileiros seguem seu treinamento com os parceiros chineses e a expectativa é que os primeiros computadores quânticos comecem a operar em João Pessoa ainda neste ano. Resta acompanhar se a pressão diplomática dos Estados Unidos vai gerar algum desdobramento prático para a cooperação já em curso.
Fontes consultadas: movimentoeconomico.com.br