Por muito tempo, a soja brasileira foi negociada principalmente por volume e por parâmetros básicos de classificação, por isso, Wander Aguilera Almeida, empresário que atua na intermediação de compra e venda de grãos, pondera que a composição do grão, especialmente o teor de proteína, começa a ganhar espaço nas discussões do mercado. A qualidade interna da soja passou a atrair cada vez mais a atenção da indústria e dos importadores.
A proteína é o componente que define o valor do farelo de soja, principal ingrediente das rações para aves, suínos e outros animais. Quanto maior o teor de proteína no grão, mais fácil será produzir farelo dentro dos padrões exigidos por compradores nacionais e internacionais, especialmente em mercados que pagam mais por farelo de alta proteína.
Estudos e análises do setor indicam que o teor médio de proteína da soja brasileira tem apresentado queda em algumas regiões nas últimas décadas, enquanto a produtividade tem evoluído. Embora o tema ainda esteja em discussão, já mobiliza a indústria, a pesquisa e os compradores. Entenda a seguir por que isso importa e como pode afetar a comercialização.
O teor proteico como fator de valorização da soja
O mercado internacional de farelo apresenta exigências rigorosas em relação à concentração de proteína. Para que possam competir de forma eficaz, as indústrias de esmagamento precisam alcançar padrões comerciais estabelecidos. Quando o grão chega com um teor mais baixo, o seu processamento se torna uma atividade de risco, e o farelo corre o risco de perder valor ou necessitar de ajustes no seu processo de produção.
A composição do grão é influenciada por diversos fatores, tais como a genética das cultivares, o clima durante o enchimento dos grãos, a fertilidade do solo e o manejo nutricional. Cultivares desenvolvidas com o foco em alta produtividade, contudo, não priorizaram o teor de proteína, uma vez que o mercado tradicionalmente remunerou o volume entregue.
Diante desse cenário, pesquisadores e empresas vêm discutindo o estabelecimento de novas estratégias para lidar com a questão. Além disso, Wander Aguilera Almeida pontua que a combinação entre produtividade e qualidade tende a se tornar um diferencial competitivo para a soja brasileira nos próximos anos.

Os impactos dos parâmetros de qualidade na comercialização
Atualmente, a comercialização da maioria dos grãos de soja não ocorre de maneira diferenciada em função do teor de proteína. Em contrapartida, programas de bonificação e contratos específicos para grãos com características diferenciadas começam a ser discutidos ou testados por algumas empresas.
Com o aumento da prática, o produtor poderá receber uma compensação não apenas pelo volume entregue, mas também pela qualidade interna do grão. De acordo com Wander Aguilera Almeida, a implementação de tal modificação demandaria análises mais frequentes, registros de manejo mais detalhados e uma maior segregação dos lotes nos armazéns. Tais mudanças, contudo, envolvem custos adicionais e alterações na rotina de recebimento.
O uso da tecnologia tem o potencial de tornar esse processo mais eficiente. A utilização de equipamentos de análise rápida no recebimento dos grãos permite a medição de proteína e óleo em poucos minutos, criando condições para a diferenciação das cargas sem atrasar a logística da safra, condição essencial em períodos de colheita intensa.
Qualidade como novo critério de valor
Ademais, o teor de proteína da soja evidencia a possibilidade de o mercado de grãos evoluir de uma lógica baseada apenas em volume para outra que valorize características específicas do produto. A demanda das indústrias de ração e dos importadores de farelo é o que impulsiona essa discussão.
Em sua análise, Wander Aguilera Almeida destaca que a diferenciação por qualidade, quando implementada de forma transparente, pode abrir novas oportunidades de negociação para o produtor.
É imprescindível que a mudança ocorra de forma gradativa e que seja pautada na padronização, na tecnologia e no interesse dos compradores. Entretanto, essa tendência sugere que, no futuro, o valor de determinado produto poderá equivaler ao valor do número de sacas colhidas, ampliando os critérios empregados para definir uma boa negociação.