Projeto BINGO, parceria científica entre Paraíba e universidades chinesas, é citado como suposta base militar, mas pesquisadores negam a acusação.
Como um projeto de astrofísica instalado no interior da Paraíba parou no centro de uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e China? A resposta está no radiotelescópio BINGO, instrumento científico em construção na zona rural do município de Aguiar, no sertão paraibano, que recentemente foi citado por autoridades americanas como uma possível base militar chinesa disfarçada de projeto de pesquisa. O físico Élcio Abdalla, coordenador geral da iniciativa, negou publicamente a acusação, afirmando que o projeto tem finalidade puramente científica e que a participação chinesa se limita ao apoio tecnológico e de pesquisadores, sem qualquer ingerência militar nas decisões tomadas pela equipe brasileira.
O que é o projeto BINGO e por que ele está na Paraíba
O BINGO, sigla em inglês para Oscilações Acústicas de Bárions de Observações Integradas de Gás Neutro, é considerado o maior radiotelescópio da América Latina e o primeiro do mundo dedicado especificamente à observação da energia escura, força responsável por acelerar a expansão do universo e que, segundo estimativas, compõe entre 68,3% e 70% de todo o cosmo. Diferente de telescópios ópticos tradicionais, o instrumento capta sinais invisíveis ao olho humano e também poderá monitorar satélites, meteoros e outros corpos celestes de menor porte, ampliando seu potencial de uso para além da cosmologia pura.
A escolha da Serra do Urubu, no município de Aguiar, no sertão paraibano, não foi aleatória: a região reúne condições ambientais favoráveis à captação de sinais de rádio, o que torna a Paraíba protagonista em um projeto de alcance internacional. O Governo do Estado, por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa da Paraíba, já investiu cerca de R$ 13 milhões na iniciativa, que conta ainda com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Financiadora de Estudos e Projetos e da Universidade de Yangzhou, na China, somando um orçamento total próximo de R$ 35 milhões.
Como funciona a cooperação científica entre Paraíba e China
A colaboração reúne instituições brasileiras como a Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de Campina Grande e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ao lado de universidades e centros de pesquisa chineses, entre eles a Universidade de Yangzhou, o Observatório Astronômico de Xangai e o 54º Instituto de Pesquisa do Grupo Chinês de Tecnologia Eletrônica. Do lado chinês, os refletores primário e secundário do telescópio, com 40 e 34 metros de diâmetro respectivamente, foram construídos a partir de projeto óptico desenvolvido no Brasil, o que demonstra a divisão técnica de responsabilidades entre os dois países ao longo do desenvolvimento do instrumento.
Segundo Élcio Abdalla, apenas três pesquisadores de universidades chinesas integram a cúpula de comando do projeto, composta majoritariamente por brasileiros, o que torna o BINGO um dos poucos projetos científicos internacionais com presença majoritária de cientistas do país sede no comitê de governança. Em 2024, o Governo da Paraíba também firmou parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia de Yangzhou para a criação de um Centro Conjunto de Ciências do Espaço, ampliando a cooperação para além do próprio radiotelescópio e criando uma estrutura permanente de intercâmbio científico entre pesquisadores paraibanos e chineses.
O que está por trás da acusação e o que dizem os cientistas envolvidos
A menção ao BINGO como suposta base militar chinesa surgiu em meio à disputa geopolítica mais ampla entre Estados Unidos e China por influência tecnológica e científica na América Latina, um contexto no qual qualquer parceria de pesquisa envolvendo instituições chinesas tende a ser observada com desconfiança por parte de autoridades americanas. Abdalla foi direto ao rebater a acusação, afirmando que o projeto não tem qualquer aplicação militar e que os colegas chineses envolvidos atuam exclusivamente do ponto de vista científico, sem fazer qualquer afirmação de natureza militar sobre o instrumento ou sua operação.
O físico reforçou ainda que eventual influência sobre as decisões do projeto é predominantemente brasileira, já que a coordenação geral e a maior parte do financiamento seguem concentradas em instituições nacionais, com participação chinesa restrita ao apoio técnico e à colaboração de poucos pesquisadores. Com previsão de entrar em operação ainda neste ano, o BINGO deve começar a gerar os primeiros dados científicos sobre energia escura em breve, e a expectativa entre os pesquisadores é que os resultados falem por si, reduzindo o espaço para especulações sobre finalidades alheias à pesquisa astrofísica que motivou sua construção no sertão paraibano.
O caso do BINGO mostra como um projeto científico de origem local pode ganhar repercussão internacional por razões que vão muito além de seus objetivos originais. Para a Paraíba, o radiotelescópio segue sendo, acima de tudo, uma aposta em ciência de ponta e em cooperação internacional, e o desenrolar dessa polêmica nos próximos meses deve ajudar a esclarecer, com mais dados concretos, a real natureza do instrumento instalado em Aguiar.
Fontes:
Jornal da Paraíba | FAPESQ | Governo da Paraíba